Resolvi te escrever bem rapidinho, é que eu tô com
pressa, ainda tenho que sair e ganhar a vida, depois fazer compras (é, a minha
geladeira continua vazia desde que você se foi...) ainda tenho que pintar o meu
cabelo, é, ainda tô nessa de luzes californianas. Eu sei que você gosta, até
elogiou o meu cabelo antes de ir embora. Eu lembro como se fosse hoje, eu sei
que foi ontem, mas é que pra mim parece eternidade. Eu peguei suas roupas na
lavanderia, quer que eu guarde na sua parte do armário? Tá vazia, não se
preocupe que ainda não tomei pra mim. Gosto do aperto que se tornou meu armário
quando te recebi. Até hoje não encontrei tudo, mas se já encontrei você, me
basta. Ah, os seus livros, alguém do nome engraçado veio buscar. Quem é ele? Nunca
conheci seus amigos, você sempre se escondeu dentro de você, e nunca conheci
quem de fato te conhece. Acho que sou a única que conversa com você, alguém
mais? Também eu não sei, quando você sai para seus ensaios, eu não sei quem
você encontra. Nem conheci tua família. Você tem família? Desculpa, eu sei que
você não gosto de falar, mas é que eu não sei aonde achar você. Te procurei
aonde senti seus passos, fui ali no bar da esquina, na livraria e
no café. E nada! Andei até por onde não conheço na tentativa de achar você
perdido, perdido de mim e de tudo por eu não conhecer sua verdadeira morada. Eu
sei que quando te abriguei não quis saber de nada, respeitei seu silêncio
acreditando que um dia você fosse se abrir. Em vão! Aliás, aonde você trabalha? É que eu nunca entendi esses seus ensaios se nunca, de fato, assisti suas peças.
Você é ator? Nunca te vi por ai atuando... que seja. Eu não quero falar de nada que
não conheço, mas de você que conheci. Tudo bem, que conhecer não te conheço,
afinal tenho tantas perguntas. Mas eu conheci o que você quis se mostrar. Incompleto,
mas perfeito para mim. Conheci seus gostos e moldei minha vida na tentativa de
te agradar. Agradei? Até o sofá eu mudei por sua causa, a cor era alegre demais
pra você. A cortina de voal eu joguei entulhada em algum canto. Abri espaços
para você se insinuar enquanto dizia ensaiar sei lá o quê. Minha escrivaninha
ficou tomada pelos seus tantos livros. Nunca mais tive espaço na minha calmaria.
Eu gostei dessa desordem que você provocou na minha vida, volta? Eu sinto falta
das suas meias jogadas pela cama, e de sua toalha molhada em cima de mim. Até
do álcool entupindo a minha geladeira eu sinto falta, acredita? Eu que sempre
reclamei da sua boemia. Mudei. Mudei com a falta que você se fez presente. Ainda
sinto você do outro lado da cama, roubando meu edredom. É, eu disse que ia ser
breve, mas quando se fala de nós as palavras correm até mim. Vou deixar essa
carta embaixo do tapete da entrada junto com as chaves que eu te dei. Se quiser
entrar, a casa é sua.
(.)