24 setembro 2012

A casa é sua


Resolvi te escrever bem rapidinho, é que eu tô com pressa, ainda tenho que sair e ganhar a vida, depois fazer compras (é, a minha geladeira continua vazia desde que você se foi...) ainda tenho que pintar o meu cabelo, é, ainda tô nessa de luzes californianas. Eu sei que você gosta, até elogiou o meu cabelo antes de ir embora. Eu lembro como se fosse hoje, eu sei que foi ontem, mas é que pra mim parece eternidade. Eu peguei suas roupas na lavanderia, quer que eu guarde na sua parte do armário? Tá vazia, não se preocupe que ainda não tomei pra mim. Gosto do aperto que se tornou meu armário quando te recebi. Até hoje não encontrei tudo, mas se já encontrei você, me basta. Ah, os seus livros, alguém do nome engraçado veio buscar. Quem é ele? Nunca conheci seus amigos, você sempre se escondeu dentro de você, e nunca conheci quem de fato te conhece. Acho que sou a única que conversa com você, alguém mais? Também eu não sei, quando você sai para seus ensaios, eu não sei quem você encontra. Nem conheci tua família. Você tem família? Desculpa, eu sei que você não gosto de falar, mas é que eu não sei aonde achar você. Te procurei aonde senti seus passos, fui ali no bar da esquina, na livraria e no café. E nada! Andei até por onde não conheço na tentativa de achar você perdido, perdido de mim e de tudo por eu não conhecer sua verdadeira morada. Eu sei que quando te abriguei não quis saber de nada, respeitei seu silêncio acreditando que um dia você fosse se abrir. Em vão! Aliás, aonde você trabalha? É que eu nunca entendi esses seus ensaios se nunca, de fato, assisti suas peças. Você é ator? Nunca te vi por ai atuando... que seja. Eu não quero falar de nada que não conheço, mas de você que conheci. Tudo bem, que conhecer não te conheço, afinal tenho tantas perguntas. Mas eu conheci o que você quis se mostrar. Incompleto, mas perfeito para mim. Conheci seus gostos e moldei minha vida na tentativa de te agradar. Agradei? Até o sofá eu mudei por sua causa, a cor era alegre demais pra você. A cortina de voal eu joguei entulhada em algum canto. Abri espaços para você se insinuar enquanto dizia ensaiar sei lá o quê. Minha escrivaninha ficou tomada pelos seus tantos livros. Nunca mais tive espaço na minha calmaria. Eu gostei dessa desordem que você provocou na minha vida, volta? Eu sinto falta das suas meias jogadas pela cama, e de sua toalha molhada em cima de mim. Até do álcool entupindo a minha geladeira eu sinto falta, acredita? Eu que sempre reclamei da sua boemia. Mudei. Mudei com a falta que você se fez presente. Ainda sinto você do outro lado da cama, roubando meu edredom. É, eu disse que ia ser breve, mas quando se fala de nós as palavras correm até mim. Vou deixar essa carta embaixo do tapete da entrada junto com as chaves que eu te dei. Se quiser entrar, a casa é sua.

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