Enquanto as luzes se apagam ela procura confortar o corpo e terminar de escrever. A noite avisa que foi feita pra dormir. Briga e brinca ao apagar e acender. Ela pede calma... Diz já estar preparada, com a cama arrumada, ou melhor desarrumada, só na espera de apagar. Mas acende e pisca a luz fraca do abajur de cabeceira, e desenha na parede engraçadas projecões. Ela ri e desconcentra a mente que já estava pronta pra sonhar. Acorda antes mesmo de adormecer. A luz pisca e apaga e finalmente queima, de vez, mais uma vez, de tanto alimentar os olhos famintos de insônia. A lanterna já não aguenta mais servir de reserva, e clama descanso e novas bateriais. Fraca luz, que apaga e acende e, pisca mais uma vez. Apaga... E a noite avisa que foi feita pra dormir.
(.)
30 setembro 2012
29 setembro 2012
Dobradiça gravada com o seu nome
Hoje passei pela portaria do meu prédio e surpresa eu tive ao olhar a dobradiça da porta e não encontrar seu nome. Pois é, existe uma marca com o seu sobrenome e ela estava tão perto de mim. Todos os dias ao sair e ao chegar abria a porta e, me lembrava de você. Era involuntário não passar e não olhar. Tinha o prazer de conferir sua presença distante que por anos se manteve ali. Até mesmo quando já não existia o nós. Eu nunca te contei porque achei bobagem, sempre me achei boba por esperar encontrar você bem ali no meu hall. Senti-me protegida pela sua ausência, usei desse refúgio para te encontrar sempre que sentisse saudade. Boba. Tola. E hoje ao entrar, te procurei... Mas não achei seu simples nome. E senti que te perdi faz tempo. Anos atrás. Usei dessa ilusão, de ter sua presença todos os dias, e esqueci que você foi embora faz tempo... Agora você se foi por completo, sumiu da minha dobradiça gravada com o seu nome.
(.)
(.)
27 setembro 2012
Insônia
Incapaz de alimentar a própria fome
Horas encostada ao fogão
E em vão... O arroz queimou.
Atira a panela
O grito vira tosse
O ódio gera dor.
O espaço era pequeno demais para acomodar ela e suas desilusões
Ela era grande e por isso explodia.
Quase não cabia dentro de sua sobriedade
E mesmo assim bebia ao acaso que se permitia.
O som ensurdecia e envolvia a fumaça perfumada de silêncio e incenso.
Seu pretexto consolador era o cansaço aliado a sua cama
Bagunçava o lençol num desmaio sem sono...
...Era insônia.
(.)
Horas encostada ao fogão
E em vão... O arroz queimou.
Atira a panela
O grito vira tosse
O ódio gera dor.
O espaço era pequeno demais para acomodar ela e suas desilusões
Ela era grande e por isso explodia.
Quase não cabia dentro de sua sobriedade
E mesmo assim bebia ao acaso que se permitia.
O som ensurdecia e envolvia a fumaça perfumada de silêncio e incenso.
Seu pretexto consolador era o cansaço aliado a sua cama
Bagunçava o lençol num desmaio sem sono...
...Era insônia.
(.)
Sossego e desabafo
Permanece e domina
Alimenta e digere
Flui, deixa fluir sem compromisso,
O corpo estático compôs fluidez
Movimenta e envolve
Balança e entorpece
Pazeia e cante
Encante
Engole
Cuspa a culpa
Argumente e olhe
Adormeça e desfrute
Verbalize sentimentos
Poete e transmita
Comece e termina
Sossego e desabafo.
(.)
Alimenta e digere
Flui, deixa fluir sem compromisso,
O corpo estático compôs fluidez
Movimenta e envolve
Balança e entorpece
Pazeia e cante
Encante
Engole
Cuspa a culpa
Argumente e olhe
Adormeça e desfrute
Verbalize sentimentos
Poete e transmita
Comece e termina
Sossego e desabafo.
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24 setembro 2012
A casa é sua
Resolvi te escrever bem rapidinho, é que eu tô com
pressa, ainda tenho que sair e ganhar a vida, depois fazer compras (é, a minha
geladeira continua vazia desde que você se foi...) ainda tenho que pintar o meu
cabelo, é, ainda tô nessa de luzes californianas. Eu sei que você gosta, até
elogiou o meu cabelo antes de ir embora. Eu lembro como se fosse hoje, eu sei
que foi ontem, mas é que pra mim parece eternidade. Eu peguei suas roupas na
lavanderia, quer que eu guarde na sua parte do armário? Tá vazia, não se
preocupe que ainda não tomei pra mim. Gosto do aperto que se tornou meu armário
quando te recebi. Até hoje não encontrei tudo, mas se já encontrei você, me
basta. Ah, os seus livros, alguém do nome engraçado veio buscar. Quem é ele? Nunca
conheci seus amigos, você sempre se escondeu dentro de você, e nunca conheci
quem de fato te conhece. Acho que sou a única que conversa com você, alguém
mais? Também eu não sei, quando você sai para seus ensaios, eu não sei quem
você encontra. Nem conheci tua família. Você tem família? Desculpa, eu sei que
você não gosto de falar, mas é que eu não sei aonde achar você. Te procurei
aonde senti seus passos, fui ali no bar da esquina, na livraria e
no café. E nada! Andei até por onde não conheço na tentativa de achar você
perdido, perdido de mim e de tudo por eu não conhecer sua verdadeira morada. Eu
sei que quando te abriguei não quis saber de nada, respeitei seu silêncio
acreditando que um dia você fosse se abrir. Em vão! Aliás, aonde você trabalha? É que eu nunca entendi esses seus ensaios se nunca, de fato, assisti suas peças.
Você é ator? Nunca te vi por ai atuando... que seja. Eu não quero falar de nada que
não conheço, mas de você que conheci. Tudo bem, que conhecer não te conheço,
afinal tenho tantas perguntas. Mas eu conheci o que você quis se mostrar. Incompleto,
mas perfeito para mim. Conheci seus gostos e moldei minha vida na tentativa de
te agradar. Agradei? Até o sofá eu mudei por sua causa, a cor era alegre demais
pra você. A cortina de voal eu joguei entulhada em algum canto. Abri espaços
para você se insinuar enquanto dizia ensaiar sei lá o quê. Minha escrivaninha
ficou tomada pelos seus tantos livros. Nunca mais tive espaço na minha calmaria.
Eu gostei dessa desordem que você provocou na minha vida, volta? Eu sinto falta
das suas meias jogadas pela cama, e de sua toalha molhada em cima de mim. Até
do álcool entupindo a minha geladeira eu sinto falta, acredita? Eu que sempre
reclamei da sua boemia. Mudei. Mudei com a falta que você se fez presente. Ainda
sinto você do outro lado da cama, roubando meu edredom. É, eu disse que ia ser
breve, mas quando se fala de nós as palavras correm até mim. Vou deixar essa
carta embaixo do tapete da entrada junto com as chaves que eu te dei. Se quiser
entrar, a casa é sua.
(.)
21 setembro 2012
Fim de tarde sem lilás
Estava pronta pra sair quando a chuva caiu. Era a chuva
acalmando os dias ensolarados e esfriando o asfalto quente. Céu nublado em
sintonia com a cor do asfalto cinza azul pálido. Opostos com o mesmo tom,
distantes pela gravidade bruta. O asfalto dançava conforme a chuva, que caia e
pintava harmonia. Seu tom pálido ganhava cor à medida que chuva e asfalto
faziam amor. A chuva acalmou demonstrando que também sabe descolorir. Esfriou o dia,
peguei o meu casaco e fui encarar o fim de tarde sem lilás...
(.)
Consumista
Hoje eu tô a fim de consumir. Enchi a carteira e sai à
procura. Pensei em tudo o que tem me faltado ultimamente, lembrei que sentia
falta de sorrisos. Ai, bem na minha frente, uma lojinha de rua estava em
liquidação. SALE! SALE! SALE! Entrei toda contente, e na primeira prateleira já
me deparei com sorrisos. Tinham de alegrias, tristezas, sorrisos/gargalhadas,
enfim... Todas as formas de sorrir. Levei vários, enchi a sacola. Virei à outra
esquina e mais SALE! SALE! SALE! Pensei em que mais eu estava precisando. Abraços!
Sentia falta de abraços... Comprei várias formas de abraçar. Fiquei feliz. Mais
adiante um menino de rua pedia esmolas. Moça! Eu sinto sede de água, mas principalmente sede de carinho. Olhei
as minhas sacolas e as estendi. Pegue! Leve a minha água e meus sorrisos com
muitos abraços. Seja feliz! Quando virei à esquina me senti completa. Completamente
preenchida por doar o mais importante e o mais simples, que por menor e mais
barato que pareça, é o mais rico remédio para a grande felicidade.
(.)
16 setembro 2012
Poetar
A inspiração falou alto durante o dia. Seu compromisso era
com a poesia. Com a arte de criar imagens, de sugerir emoções. Queria ser
tocada, sensibilizada. A poetisa era movida a emoções. O dia sugeriu um
encontro com sua arte mais íntima, tocou cada objeto, cada ser. A vida ganhou
tons suaves e peculiares. O olhar atento fotografou os detalhes, as formas e o
movimento. Tudo calmo como deveria ser. Era um dia propício para captar segredos e
mistérios. As palavras dançavam ritmadas e envolviam a existência. Era fácil o
encontro, as palavras se reuniam na tentativa de exprimir o sentir. Uma
sintonia perfeita. Ela não fazia esforços para conseguir expressar e as
palavras não corriam soltas pelas suas
mãos. Tudo estava como deveria ser. A poetisa acalmou o peito e sorriu feliz
por mais um dia de grandes inspirações.
(.)
Fim.
Uma dose de licor para queimar a garganta e esconder
verdades que ele queria dizer. Socava a parede e sentia dor até sangra para não
dar na cara dela. Ele mudou. Mudou com o tempo, os dias, a rotina. Sentiu-se
incapaz de ser o que um dia havia sido. Era jovem. Jovem demais para saber que
o casamento acaba com o amor. Conviver ele não conseguiu. Não conseguiu
conviver com ela. Ela possuía sua liberdade e não abria mão de ser livre. Ela que
sempre fora menina doce, perdera sua doçura com palavras azedas. Tinha ódio de
dizer e odiava sujar a boca com palavras imundas. Mas ele era arrogante demais.
Esquecera as palavras bem ditas. Ele cansou de ler seus versos, achou aquilo perda de tempo demais.
Eles não sabiam mais o que era conversar. Sentavam-se cada um de um lado. O sofá
que antes era grande para acomodar os corpos entrelaçados, tornou-se pequeno na
tentativa de criar barreiras para evitar qualquer contato. Tudo se perdeu. Os sorrisos
pela chegada, os pequenos gestos, o coração acelerado, a respiração ofegante. Tudo
não passava de bobagens. Ela, um dia, abriu a porta e não voltou mais.
(.)
Como deve ser
E desde então nenhum dia escapou da lembrança daquele fim. Sua
sede era tanta, era sede de poesia. Mas agora não sabia o que fazer com tantas
palavras rabiscadas em velhos cadernos. Deixou-se transparecer demais e revelou
seus mistérios. Agora sofria por ver desconhecidos invadirem seu sossego. Seus segredos
eram notícias. Tapava os ouvidos na tentativa de abafar os sons, não queria
ouvir os dizeres, ditos em bocas sujas de vulgaridade. Estava indefesa. Temia quem
se aproximava. Seu conforto era uma velha casa empoeirada, herança da família. E
seu divertimento era ver as gotas de água que escorriam pelos velhos papéis que
abrigavam seus versos. Borrava o passado, mas não o apagava. Chora, mas
permanece. Desenvolve no silêncio e no escuro, onde a referência é só palavra. Suas
palavras unidas que formam sua essência. E mesmo sem a vontade de escrever,
seus movimentos são poetizados. Nada em vão. Apenas leve, como deve ser.
(.)
15 setembro 2012
In. Love
Ultimamente tenho tido preguiça de me apaixonar,
Olhar o outro se tornou normal quando não há expectativas
A agitação dos dias tem bloqueado os sonhos, e são neles que eu te vejo,
Você ainda é fantasia.
Minha criação imperfeita, pois há você atribui defeitos,
Defeitos estes que valaerão a pena corrigir, tô afim de te ensinar e aprender.
Vou deixar essa preguiça de lado e começar olhar a minha volta,
Quem sabe você não sumiu dos meus sonhos para aparecer na minha realidade?
(.)
In love
Olhar o outro se tornou normal quando não há expectativas
A agitação dos dias tem bloqueado os sonhos, e são neles que eu te vejo,
Você ainda é fantasia.
Minha criação imperfeita, pois há você atribui defeitos,
Defeitos estes que valaerão a pena corrigir, tô afim de te ensinar e aprender.
Vou deixar essa preguiça de lado e começar olhar a minha volta,
Quem sabe você não sumiu dos meus sonhos para aparecer na minha realidade?
(.)
In love
05 setembro 2012
Dias Felizes
Com o riso frouxo e a gargalhada no canto da boca.
Gargalhava alto e seu escândalo transmitia felicidade. Era uma nova fase para a
acomodação bater asas e trazer a agitação nos dias. Amadurecera com o passado tão
presente e fizera nascer uma nova esperança. Cuidar de si, ela queria cuidar
mais de si. Aproveitar as deixas que a vida começara a mostrar abrindo portas,
novas portas que ela, talvez por medo, não quis abrir. Agora ela era mais forte,
sentia seu coração bater no mundo e sua presença ganhar forma. Não precisava
mais inventar alguém que ela gostaria de ser, o que ela se transformara
bastava. A dualidade em que ela vivia com ela mesma somava-se a liberdade, e
sua prisão dentro de si fora libertada. A risada leve era de alívio. Alívio,
enfim, de se permitir deixar ser... Suspiros!
(.)
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