Uma dose de licor para queimar a garganta e esconder
verdades que ele queria dizer. Socava a parede e sentia dor até sangra para não
dar na cara dela. Ele mudou. Mudou com o tempo, os dias, a rotina. Sentiu-se
incapaz de ser o que um dia havia sido. Era jovem. Jovem demais para saber que
o casamento acaba com o amor. Conviver ele não conseguiu. Não conseguiu
conviver com ela. Ela possuía sua liberdade e não abria mão de ser livre. Ela que
sempre fora menina doce, perdera sua doçura com palavras azedas. Tinha ódio de
dizer e odiava sujar a boca com palavras imundas. Mas ele era arrogante demais.
Esquecera as palavras bem ditas. Ele cansou de ler seus versos, achou aquilo perda de tempo demais.
Eles não sabiam mais o que era conversar. Sentavam-se cada um de um lado. O sofá
que antes era grande para acomodar os corpos entrelaçados, tornou-se pequeno na
tentativa de criar barreiras para evitar qualquer contato. Tudo se perdeu. Os sorrisos
pela chegada, os pequenos gestos, o coração acelerado, a respiração ofegante. Tudo
não passava de bobagens. Ela, um dia, abriu a porta e não voltou mais.
(.)