12 julho 2011

A preto e branco

Lembranças são cegas pela sutileza do sentir
A luz clareia o guardado do peito
Faz refletir nas retinas os negativos de nossas fotografias
A luz faz o preto
O escuro veste o branco
Tem-se o branco no preto,
O preto no branco
E assim sucessivamente...
(.)

03 julho 2011

Cansei de voar

O rosto que envelhece amadurece
Faz nascer às marcas da vida e as rugas amigas
Ando cansada, perdida na bagunça que vivo,
Estou presente da falta que fiz nascer
Soluço o vazio do nada
Sangro a ferida que abri
Rasgo o medo aflito que me persegue
Durmo sem o sono do cansaço (durmo pra fugir)
Rolo nos lençóis de seda, que antes perfumados, ganhei de ti
Olho o espelho quebrado que reflete o borrão do lápis, a cara amassada,
a raiva calada...
Relembro as noites pulsadas ao meu lilás
Toco a sobra do tudo
Cuspo o tudo do nada
Perdi o timbre da minha voz
Apaguei minha sombra
Congelei minha face
Ri da verdade (aquela que inventei)
Tatuei a mentira
Gozei o pecado
Condenei minha ira
Preenchi o meu silêncio
Interrompi a farsa do meu viver
Berrei os solos de guitarra
Gritei as gargalhadas
Despi o corpo nu
Bebi as madrugadas
Embriaguei minha poesia...

Pendurei minhas asas pelo cansaço de voar (.)

09 junho 2011

Prostituta que eu era


Eu desafio as paredes do meu quarto
Peço a elas a sangrar pelas dores que as fiz sentir
Lancei meus pertences adorados por falta de maturidade
Elas, minhas paredes, seguraram um pouco da falta que eu sentia
Manchei suas aparências, estraguei suas pinturas
Eu apenas era imatura, não tinha conduta e me faltava postura
Queria ser dona de mim, mas me perdi...
Quando me achei já não me reconheci...
A rebeldia tomou conta dos meus pés que quiseram correr mais rápido
Sem um calçado afim de protegê-los
Eu já não conseguia me deter
Uma nova consciência tomou conta do meu ser
Corria solta pelas ruas
Muitas vezes desnuda
Bebia a sobra que me fiz
Acordava ao acaso que me permiti
Dançava seminua
Atraia os olhos de desejos
Que me roubavam bocejos
Vivia por aí
Em esquinas concretas vazias de silêncio
Vendi meus sonhos
Apressei a realidade
E agora o que restou?
O que eu sou?
Um projeto de mim que criei
Uma prostituta da vida
Uma mulher vazia
O meu corpo é uma fantasia que abriga meus gritos, aflitos, que gritam calados...
Sumi na fumaça do meu próprio cigarro
Desfiz-me em pedaços...
Contei as esmolas que ganhei
E os sorrisos que perdi
Voltei as paredes do meu quarto
Refiz os buracos
Mudei suas cores
E a menina que era voltou calada
Discreta na sua dor
Com os lábios vermelhos
Escondendo o silêncio que existiu.

(.)

15 maio 2011

meu vício


Minhas estantes acomodam os vícios que já provei
Livros e mais livros já saboreei
Sou tentada a me viciar e estremeço quando devo abandonar
Atraso o fim e permaneço no começo
Será um vício nunca querer chegar ao fim?
Sinto um dó quando o tiro dos meus braços e entrego-o as estantes perdidas do meu quarto...
Sou possessiva sem saber, mas não me culpo pela posse que desejo possuir
Aos poucos me encanto com outros que são dados
E quando vejo já me viciaram...
Pertenço a cada romance que já li
Vivo presente em cada lágrima que já perdi
Aprendo com cada vício que já provei
E vicio-me de novo quando o vício gera o prazer da minha dor.

(.)

14 maio 2011

pelo o que já passei


Olho as janelas fechadas de casas que já morei
Vejo meu rosto em cantos de ruas que já passei
Encontro-me em copos de bares que já sentei
Avisto pedaços meus em águas que já mergulhei
Reencontro cacos meus que já quebrei
Preencho espaços vazios que já abandonei
Danço as noites que já cambaleei

Releio diários que já escrevi
Visto a solidão que já senti
Converso com as insônias que já vivi
Sonho com palavras que já ouvi
Questiono a própria falta que já me fiz

Analiso os borrões que já desenhei
Entro na escuridão que eu já criei
Ouço  as vozes que já conversei
Sinto o perfume que já usei
Colho as flores que já plantei
Varro a poeira que já acumulei
.
.
.
(.)

11 maio 2011

?


Ela não acreditava em casamentos
Tão pouco na ideia de ser feliz para sempre
Afinal, quem é?

Quem nunca desejou ser feliz com uma pessoa, porém hoje deseja outra?

Tudo é passageiro e o “ser feliz para sempre” dura apenas um pouco do muito de sempre.

Será que ela conheceu o amor a fundo para entender?

Será que ela já amou o suficiente?

 Será que ela já amou alguém?

O que é amar?...

Quando iremos saber?

Podemos amar, uma, duas e tantas vezes?
...

Ele chegou e simplesmente pediu-a em casamento
Ela, que não acreditava no amor, e tão pouco no casamento...
Resolveu aceitar.
E a dúvida  : Serei feliz para sempre, ou até enquanto durar?

30 abril 2011

Ela e Ele

Eles se olham ao atravessar a rua
Um oi de canto de boca e nada mais
Ela continua seu caminho
E ele também...

Ela desejava reencontrar a memória daquilo que viveu
Queria ver, rever o rosto que seus olhos acostumaram ter.
Mas uma sombra atravessou o seu olhar
E ao olhar, Ele, já não o enxergava mais...
O que ela conheceu já não pertencia o que hoje ele era
Ela já não podia resgatar as migalhas, pois elas estavam espalhadas...
O ventou resolveu varrer as ruas e esconder o que restava
O resto não importava, mas o resto do que ele era, ela queria.
Hoje Ela já não o conhecia mais...

Ele mudou de caminho e mesmo assim cruzou sua rua
E ao atravessar eles se olharam
Um oi de canto de boca e nada mais...
Ela continuou seu caminho
E ele também.

(.)

22 abril 2011

Ela, Clarice, falou pra mim...

Uma praça vazia
Uma moça, menina ou mulher, eu, sentada ali...
Sentada no banco de uma praça
Sem pressa de nada
Correndo de tudo
Um novo livro em mãos
Ela, Clarice, falou pra mim:
“... Sentada ali num banco, a gente não faz nada: fica apenas sentada deixando  o mundo ser...”.
E assim continuei sentada no banco de uma praça
Apenas deixando meu mundo ser...

(.)

15 abril 2011

Janela de um ônibus

O vento bate na minha cara
Pela janela de um ônibus que segue pelo aterro...
Vejo dois senhores, jovens... Não sei
Ela doce, encosta a cabeça no ombro de seu marido, namorado, amante... Já não sei
Ele olha fixamente dentro dos olhos dela e começa a acaricia-la...
Minha atenção que antes era a paisagem do aterro do flamengo
Perdeu-se entre esses dois jovens senhores que não cansei de admirar...
É estranho talvez, um dia pensar que estarei como eles, aqueles jovens, que já não são mais...
O tempo carregou suas juventudes e trouxe o amadurecimento nas caras, enrugadas, envelhecidas...
Mas que o espírito da juventude continua presente, como dois namorados que acabam de se conhecer;
E vivem os melhores momentos de suas vidas, sentados bem ali, na janela de um ônibus
Sentindo a brisa leve carregada pelos pneus que passam em velocidade, apressados, não deixando os passageiros aproveitarem uma bela paisagem, em um lindo dia de sol.

(.)

15 março 2011

fugir


Fugir dos olhos famintos que olham os meus
Fugir da presença do outro que insiste em ficar
Fugir das lágrimas guardadas nas pálpebras
Fugir do nó apertado que entrelaça a garganta
Fugir do nada presente de tudo
Fugir da escuridão apagada
Fugir do resto restante que coroe a mente vazia
Fugir de todos, aqueles, vocês
Fugir de mim mesma
Fugir  de você que já não conheço
Fugir desse sentimento que bateu asas
Fugir na contramão
Fugir da própria voz do coração
Fugir por fugir e não voltar.(talvez)

(.)

10 março 2011

é carnaval




roda essa saia colorida
venha desfilar na avenida
espalhe a alegria
deixe o tamborim te levar
ouça o chamado
e vá menina,
sambar...

vista a máscara escondida
jogue em volta a  purpurina
espalhe a serpentina
e vá menina,
sambar...

exagere nessa grande mistura
corra solta pelas ruas
e vá menina,
sambar...

faça o seu teatro
o seu maior espetáculo
vista a fantasia
beba a alegria
e vá menina,
sambar...

(.)




02 março 2011

de cabeça para baixo

Ela,
do andar firme, possuía a firmeza de uma rocha ao caminhar
tinha o equilíbrio na ponta dos pés e os deixava descalços, simplesmente...
calçava só a esperança na voz da consciência

apagaram-se as luzes
dos olhos e do dia

[uma nova perspectiva]

ascenderam as luzes
dos olhos e do dia

Ela,
sentiu o desequilíbrio aos seus pés não tocarem mais o chão
perdeu a firmeza ao não conseguir mais andar
olhou em sua volta, rendeu-se a leveza do vento
que levemente a levava a caminhar...
procurou o mar e as espumas das ondas para acariciar seus pés
mas as ondas se curvavam e se quebravam a sua volta no ar
espirravam a brisa salgada no chão que agora era o seu céu...


Ela,
do andar firme, já não possuía a firmeza de uma rocha ao caminhar
tinha o desequilíbrio na ponta dos pés e os deixava descalços, simplesmente...
calçava só a esperança na voz da consciência

desorientada e confusa, vendo uma desordem projetada aos seus olhos
procurou um sentido para arrumar o que já não estava no lugar...

Ela,
do andar firme...
só estava de cabeça para baixo.

(.)

25 fevereiro 2011

descoberta de uma atriz

..um grande dia..
acordou com o mais puro doce da manhã
espreguiçou o corpo que ainda dormia,
despertou o movimento
recuperou a energia...
mergulhou o corpo nú na água fria
comeu frutas maduras que enfeitavam sua cozinha
abriu as janelas para admirar o novo dia...
olhou o espelho e enxergou o vazio que ali vivia
sua imagem já não existia, e ela não entendia...
..saiu para o seu grande dia..
chegou no seu palácio, um teatro encantado...
o dia de sua primeira apresentação
existia o suor nas mãos, a inquietação
e uma grande emoção...
sua hora de encarar o palco, a platéia,o silêncio calado
o frio na barriga, à vontade de desistir, o medo de não conseguir...
subiu no palco, encarou a platéia e deixou-se levar pelo silêncio
 a iluminação cegou seus olhos e um clarão refletido
 fez sua imagem ganhar,novamente... a vida ...
..um grande dia..
para uma atriz que deixou-se seduzir pelos encantos do palco
e que hoje vive no seu próprio cenário,
pintado com lápis de cor.


(.)

21 fevereiro 2011

luxúria e um lençol de seda fino

lençol de seda cintilante
cai sobre a cama na mais bela pura maciez
conforta-se ao corpo e desperta a luxúria envolvida na sua beleza...
descobre o suor que percorre, correndo, sem pressa
aos instintos da descoberta...
rasga a boca calada que grita ao prazer
escorre a saliva seca que sente a fome de provar
alimenta o vazio com uma comida fresca
e se deleita na sobremesa...
a luxúria canta no lençol de seda fino
e se espreguiça ao silêncio da sua própria quietude
brinca feito uma criança que deseja ser livre,
pra provar sua própria plenitude, correndo solta
na terra fértil de viver, o hoje, o agora, sem medo
de ser sua própria verdade inventada na atuação
dessa curta vida.


(.)
mahaivi

20 fevereiro 2011

contrariando o desejo


dias andando no calor do asfalto
queimando os pés delicados pelo desejo de fugir...
por horas caminhando, tropeçando
sentindo frio, fome e dor
desatando os nós presos na garganta
rasgando o medo no olhar perdido
solta, entregue ao vento, fazendo parte da noite vazia
encontrando significados anônimos que rodeiam a mente solitária
ruídos estridentes, persistentes,imprudentes,incoerentes,pertinentes
ocupam o corpo, a mente e o espírito...
alcançando o mundo,seu, interior
fechando portas abertas
janelas escancaradas
impedindo a luz de entrar
transformando o seu no eu de nós
tentando encontrar caminhos
diante de uma aliada escuridão.

dias andando na frieza do asfalto
esfriando os pés delicados pelo desejo de fugir... ao contrário.

(.)

17 fevereiro 2011

lua

Lua bonita que brilha no céu
Venha repousar a tua luz sobre mim
Ascendo um incenso para ti
Olho bem fundo dentro de você
Sinto seu brilho se aproximar
Há hipnotizar meus olhos que olham os teus...
Envolva-me depressa
Faça-me virar você
Você no meu eu
E eu no seu
Desperte a doçura
A magia da sua pureza
Adormece-me
Em seus braços
No seu colo amado
Na noite do meu lilás
Leve-me ao seu céu
Cubra-me com seu encantado véu...

(.)

15 fevereiro 2011

re(vivendo)

gavetas se abrem e se fecham
guardando letras bem desenhadas
de velhas escritas minhas...
folhas desbotadas pelo tempo que ali passou
causou saudade de reviver...
momentos presentes de passados aquecidos
pelas palavras relidas... lidas aqui...
ouço minha voz de tempos atrás
bebo o meu último gole da sobra que ali viveu
resgato meu tempo, meus momentos,
mas já não posso senti-los mais...
ensino minha mente a falsa ilusão
de sentir de novo...o que antes era real.

(.)

11 fevereiro 2011

perfume da flor

essência doce e perfumada
burrifiquei ao meu lar
canto sagrado de mimos
lembranças aquecidas
pelo olhar de cada dia...
cheiros
cantos
sabores...
envolvidos pela presença
do ar renovado
que dança espalhando
no cantinho reservado
sensações adormecidas
aguçam os sentidos
despertam desejos
das vontades esquecidas.

(.)

10 fevereiro 2011

desejo


um desejo de mudar
transferir
dispor
desviar
variar
substituir
alterar
modificar
e transformar ...
(.)

05 fevereiro 2011

simples assim

..um dia disseram que menina não chora
contaram que a tristeza é saciada ao pentear dos cabelos
falaram mais...
menina come de boca fechada
cruza as pernas ao sentar
sorri calmamente e acena aos demais
usa vestido cor de rosa e flores no cabelo
fala baixo pra ninguém ouvir
sonha com um belo príncipe cavalgando num cavalo branco
espera o cavalheiro tirar pra dançar...
porém esquecerem de perguntar se a menina era feliz
vivendo uma vida que todos disseram que ela deveria viver...

a menina diz...
não preciso pentear meus cabelos pois tenho o vento que os penteiam
como de boca aberta
sento de qualquer jeito
sorrio a quem eu quiser sorrir
uso qualquer roupa e nada no cabelo
falo alto pra todo mundo ouvir
sonho com um amor qualquer, mas que me faça feliz
não espero ninguém me chamar pra dançar, danço sozinha
e vivo a vida que eu digo servir para mim.

(.)